Não
é fácil conviver com tantos problemas, é verdade. Problemas próprios e alheios,
de todos os tipos e de gravidade variável. Entretanto, são os problemas o
reflexo dos nossos atos nesta ou em outra encarnação, são rastros que deixamos
no tecido da matéria, no tempo e no espaço, como resíduos que contaminam a
terra, a água, o ar e , por consequência, o nosso espírito, que nestes meios
está imerso.
No
princípio, a visão simplória das nossas vidas apontava tão somente para as
nossas necessidades mais básicas. A questão da sobrevivência e da possibilidade
da existência de nossas vidas era a maior das tarefas que carecíamos empreender, para subsistir com as demais criaturas e habitar os espaços terrestres.
Mas
a necessidade do homem é diretamente proporcional ao tamanho do seu ego, e na
possibilidade de estabelecer uma relação baseada em necessidades materiais, não
viu ,a criatura, o surgimento da pior de suas criações, a hierarquização da sociedade, baseada
exclusivamente na relação de poder, ligada ao acúmulo daquilo que se
convencionou chamar de “riquezas”, e a consequente inversão de papéis – O homem
passou a ser servo de suas necessidades, deixando de controla-las.
O
poder e a riqueza material assumiram, em
pouco tempo, o status de caminho a ser seguido, objetivo a ser conquistado; a
criatura humana, deixa de ser o centro
das suas próprias preocupações e, literalmente, passa a viver à margem de suas
próprias necessidades, na recém criada sociedade organizada.
Tal
realidade persiste até os dias de hoje, tornando-se difícil atuar na reversão
deste quadro. Mas, é necessário que a consciência humana se reencontre
urgentemente, promovendo o próprio resgate. Não há neste mundo, nada que valha
mais do que uma vida humana. Não há um só elemento, nem partícula, ou
substância que se mostre mais capaz de transformar esse mundo do que uma
atitude, um gesto, uma ação humana.
A
gratuidade de nossas ações revela o caráter de nossa existência, que deveria
por si só, ser necessária para transformar este mundo em ambiente ideal para a
proliferação da vida, para o desenvolvimento da nossa sociedade, com todas as
previsíveis maravilhas de modernidade, sempre no horizonte do porvir.
Quando
o ser humano colocar-se a frente de suas próprias necessidades, estará dando o
primeiro passo para dividir todo o espaço que lhe foi delegado para viver, o
qual lhe foi e vem sendo permitido habitar. Podemos comprovar tal afirmação
indagando-nos: Ora, de onde surgem os problemas que nos assolam diariamente?
Porque andamos atribulados e comprometidos com afazeres que, de fato, não
poderemos usufruir no futuro, pois que não gozaremos de saúde física para tal,
ao invés de nos debruçarmos sobre gestos que ordenem o nosso modo de viver e
conviver uns com os outros?
Eis
a resposta para tantos problemas, não estamos de fato nos dedicando a extirpar
a fonte, a origem de todos eles, pois que nos dedicamos a satisfação das
necessidades materiais, quer sejam imediatas, quer sejam as que nos trazem
conforto e sensação de poder, quando deveríamos observar que, enquanto houver um
de nós que não chamemos de próximo, de irmão, de semelhante e não pudermos nos
sentar juntos, conviver juntos, conversar e, enfim conviver, não seremos
Humanidade, no máximo seremos grupos de
humanos, cada qual com seus desejos e necessidades e todos com os mesmos
problemas.
(
Ulisses Tavares Neves )

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